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Fontes primárias e secundárias em história

6 min de leitura

Fonte primária é um material produzido na época estudada ou por alguém que viveu o fato: uma carta, um diário, uma lei, uma foto, um objeto. Fonte secundária é uma análise feita depois, a partir das primárias: um livro de historiador, um artigo, um documentário. A Carta de Pero Vaz de Caminha (1500) é fonte primária sobre a chegada dos portugueses; um livro de 2020 sobre ela é fonte secundária. Um bom trabalho usa as duas.

A diferença em uma tabela

TipoO que éExemplos
Fonte primáriaProduzida na época ou por testemunha diretaCarta de Caminha (1500), Lei Áurea (1888), diário de bordo, jornal da época, fotografia, moeda, ata, testamento
Fonte secundáriaAnálise posterior baseada em fontes primáriasBiografia, livro didático escrito por historiador, artigo acadêmico, documentário
Fonte terciáriaResumo ou compilação de fontes secundáriasEnciclopédia, verbete da Wikipédia, cronologia, manual de referência

A primária mostra o que as pessoas da época viram, disseram ou fizeram. A secundária explica, compara e corrige. A terciária ajuda a se localizar rapidamente, mas não deve ser a base de um trabalho.

Exemplos de fontes primárias da história do Brasil

  • A Carta de Pero Vaz de Caminha ao rei D. Manuel, datada de Porto Seguro, 1º de maio de 1500. O original está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.
  • A Lei Áurea, assinada pela princesa Isabel em 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão no Brasil.
  • Jornais do Império e da República, digitalizados na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
  • Registros de batismo, inventários e cartas de alforria, guardados em arquivos públicos e de igrejas.
  • Objetos: cerâmica marajoara, moedas, ferramentas, roupas. Fonte primária não é só texto.
  • Depoimentos orais de quem viveu um fato, como entrevistas com moradores mais velhos da sua cidade.

Exemplos com personagens da história mundial

O mesmo personagem pode ser estudado por fontes dos dois tipos. Veja três casos:

PersonagemFonte primáriaFonte secundária
Galileu GalileiO Mensageiro das Estrelas (1610), escrito por eleGalileo, de J. L. Heilbron (2010)
Marie CurieO artigo de julho de 1898 que anuncia o polônioMarie Curie: A Life, de Susan Quinn (1995)
Fernão de MagalhãesO relato de Antonio Pigafetta, que viajou com ele (c. 1524)Over the Edge of the World, de Laurence Bergreen (2003)

Repare no caso de Magalhães: ele não deixou diário, e a principal fonte primária sobre a viagem foi escrita por outro tripulante. Fonte primária não quer dizer fonte escrita pelo próprio personagem; quer dizer fonte da época. As biografias de Galileu e de Marie Curie indicam as fontes de cada fato.

Depende da pergunta: quando uma fonte muda de tipo

A classificação depende do que você está estudando. Um livro didático de 1970 é fonte secundária sobre a Independência, mas é fonte primária se a sua pergunta for "como as escolas da ditadura militar ensinavam a Independência?". O livro de Giorgio Vasari sobre os artistas do Renascimento (1550) é secundário sobre Leonardo da Vinci, que morreu antes, mas é primário sobre o que se pensava da arte em Florença em meados do século XVI.

Também há casos intermediários. Memórias escritas décadas depois do fato são primárias, porque o autor viveu os acontecimentos, mas a memória falha e o autor pode querer se justificar. Traduções são sempre um filtro: quando possível, confira o trecho importante em mais de uma tradução.

Como analisar uma fonte primária em seis perguntas

Use este roteiro sempre que estiver diante de um documento:

  1. Quem produziu? Cargo, origem, interesse no assunto.
  2. Quando e onde? Logo depois do fato ou anos depois? No lugar ou à distância?
  3. Para quem? Uma carta ao rei é escrita de um jeito; um diário íntimo, de outro.
  4. Para quê? Informar, convencer, pedir algo, se defender?
  5. O que diz? Resuma com suas palavras e destaque um trecho.
  6. O que não diz? Quem está ausente ou é descrito só pelo olhar de outro?

Aplicado à Carta de Caminha: escrita por um funcionário da armada, poucos dias depois da chegada, para o rei, com o objetivo de informar e de mostrar que a terra tinha valor. Descreve os indígenas com detalhes, mas só pelo olhar europeu; os tupiniquins não deixaram registro escrito daquele encontro. Saber isso não diminui o valor da carta: mostra como usá-la.

Onde encontrar fontes primárias na internet

  • Biblioteca Nacional Digital e Hemeroteca Digital Brasileira: jornais, revistas, mapas e manuscritos brasileiros.
  • Arquivo Nacional: documentos do governo brasileiro desde a Colônia.
  • Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Portugal): documentos do período colonial, incluindo a Carta de Caminha digitalizada.
  • Projeto Gutenberg e Wikisource: livros e documentos em domínio público, em várias línguas.
  • Portais de museus e universidades, que muitas vezes publicam acervos digitalizados com descrição.

Sempre que copiar um trecho, anote o título do documento, a data, o arquivo e o endereço da página, para montar a bibliografia.

Exercício: classifique as fontes

Imagine um trabalho sobre a abolição da escravidão no Brasil. Classifique cada item como primário, secundário ou terciário (respostas abaixo):

  1. Um anúncio de jornal de 1885 oferecendo recompensa por uma pessoa escravizada fugida.
  2. Um artigo acadêmico de 2015 sobre o movimento abolicionista em São Paulo.
  3. O verbete "Lei Áurea" de uma enciclopédia.
  4. Uma fotografia de 1888 de uma missa campal no Rio de Janeiro em comemoração à abolição.
  5. Um documentário de 2018 com entrevistas de historiadores.

Respostas: 1 primária, 2 secundária, 3 terciária, 4 primária, 5 secundária.

E as conversas com IA? Não são fonte

Uma conversa com um chatbot ou com uma recriação de personagem histórico por IA não é fonte primária nem secundária. Ela é gerada agora, por um programa, e pode inventar fatos e citações. No Yuga, por exemplo, você conversa por voz com recriações por IA de figuras como Galileu, construídas a partir dos escritos delas e do registro histórico. Isso ajuda a treinar uma entrevista histórica ou a ter ideias de pergunta. Mas a recriação não é a pessoa real e pode errar: o que for usar no trabalho, confira e cite no documento original ou numa biografia séria. O guia sobre conversar com personagens históricos por IA explica o porquê.

Perguntas frequentes

O que é uma fonte primária em história?
É qualquer material produzido na época estudada ou por alguém que viveu diretamente o fato: cartas, diários, leis, jornais, fotografias, objetos, depoimentos. Ela é a matéria-prima do historiador. Exemplo brasileiro clássico: a Carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500, sobre a chegada dos portugueses.
O que é uma fonte secundária?
É um trabalho feito depois, por alguém que analisou fontes primárias: biografias, livros de historiadores, artigos acadêmicos, documentários. Ela explica o contexto, compara versões e corrige erros. Um livro de 2010 sobre Galileu é fonte secundária; o livro que Galileu publicou em 1610 é primária.
A Wikipédia é fonte primária ou secundária?
Nenhuma das duas: é uma fonte terciária, porque resume outras fontes secundárias. É útil para se localizar e encontrar referências, que aparecem nas notas ao pé de cada verbete. Para um trabalho escolar, vá até essas referências e cite os livros e documentos originais.
Livro didático é fonte primária ou secundária?
Em geral é secundária, porque explica fatos passados a partir de outras fontes. Mas pode virar primária se a pesquisa for sobre a própria época em que ele foi escrito, por exemplo, como a escola ensinava história nos anos 1970. A classificação depende da pergunta.
Uma fotografia é fonte primária?
Sim, quando foi feita na época do fato. Mas também precisa ser analisada: quem fotografou, para quê, o que ficou fora do enquadramento, se a cena foi montada. Uma foto antiga recolorida ou recortada para a internet perde informação, então procure a versão do arquivo original.

Fontes

  • Carta de Pero Vaz de Caminha a D. Manuel (1500), Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa
  • Carla Bassanezi Pinsky (org.), Fontes Históricas (Editora Contexto, 2005)
  • Biblioteca Nacional Digital do Brasil
  • Library of Congress, Teachers: Getting Started with Primary Sources